O Vício dos Vices
Verbo "mamar" em Piancó é assim conjugado: "é juntar a fome com a vontade de comer"Há mais de trinta anos, dois grupos políticos se revezam à frente da Prefeitura Municipal de Piancó, comandados pelos ex-prefeitos Gil Galdino e Edvaldo Leite de Caldas. O primeiro já foi prefeito por quatro vezes (incluído a gestão de sua filha, Flávia Galdino, atual prefeita), iniciando as suas atividades políticas em 1968. O segundo, desde 1976, busca incansavelmente igualar o feito. Já foi prefeito por três vezes.
A explicação para a demasiada alternância de gestores públicos, pertencentes a apenas dois grupos dominantes, à frente dos destinos do município é simples: o Povo de Piancó, muitas vezes, foi obrigado a votar neles porque em muitas eleições não se tinha uma terceira opção, pois não se consegue densidade eleitoral para enfrentá-los nas urnas. O esmagamento político com a polarização das campanhas eleitorais empreendidas pelos dois grupos dominantes prevalecia e prevalecem sobre qualquer tentativa de nascimento de uma nova liderança política, a exemplo do médico Paulo Montenegro, Sales Lima, Djalminha Leite e por mim, que tentaram dar uma opção ao eleitorado piancoense, mas sucumbiram ante a ausência de apoios e de votos.
A tática dos dois grupos políticos se equivalem. Ambos se utilizam dos mesmos instrumentos eleitoreiros para evitar o aparecimento de uma nova liderança e, quando aparece alguém disposto a enfrentá-los, o cargo de vice-prefeito é oferecido para dizimar qualquer pretensão de embate nas urnas e a ameaça ao domínio político. É fácil chegar a essa ilação diante de vários acontecimentos pretéritos, como a seguir veremos.
Em 2000, a família Remígio fora beneficiada com o cargo de vice-prefeito, com Anna Karinna, na chapa encabeçada por Edvaldo Caldas e foram vitoriosos. Nas eleições municipais de 2004, o cargo de vice-prefeito na chapa do então prefeito Edvaldo foi preenchida por Christianne Remígio. Do outro lado, Flávia Galdino, filha de Gil Galdino e natural sucessora, tinha como vice, o vereador Antônio Dantas. O empresário Sales Lima, considerado uma "cria" do esquema de Gil Galdino, se rebelou e lançou a sua candidatura. Eu também postulei o cargo, mas fui massacrado por circunstâncias do destino que todo mundo é sabedor, bem como pela minha ínfima votação que obtive. Naquela eleição, o grupo Galdino venceu e, por conta do resultado eleitoral, Flávia Galdino administra o município desde 2005. Este ano, prepara-se para a reeleição.
Após a eleição, o grupo Galdino tratou de acabar as pretensões políticas e de um futuro promissor de Antônio Dantas, fulminando qualquer negociação para repetir este ano a chapa vencedora em 2004 e, em conseqüência, a sua sonhada indicação como candidato do grupo nas eleições de 2012.
Agora, estamos em 2008. O quadro não se mostra diferente. A prefeita Flávia Galdino, franca favorita nas próximas eleições municipais, por ter sabido aproveitar os investimentos do Governo Lula trazendo inúmeros investimentos ao município, oferece a vaga de vice-prefeito na sua chapa aos adversários ou temidas novas lideranças. Nunca se viu em toda história política de Piancó uma vaga tão cobiçada, sonhada e almejada por adversários políticos do grupo Galdino, incluindo-se nessa disputa o ex-prefeito e inimigo político, Edvaldo Leite de Caldas (as conversações sobre a junção dos grupos rivais históricos são diplomaticamente conduzidas por antigos algozes, Gil Galdino e Edvaldo Caldas). A denominada "pacificação", tão aclamada por Chico Jó, não ocorreu ainda por circunstâncias que ninguém ainda sabe explicar (talvez o bolo seria pequeno para dividir com tanta gente) . Ficou patente que a vaga de vice na chapa da prefeita atual aparece como um "prato" apreciado e devorado até por antigos ferrenhos adversários.
E vejam o que aconteceu.... O advogado Remígio Júnior, que há pouco tempo não escondia o seu descontentamento com a atual gestora pública soltando impropérios verbais agressivos nos microfones da Rádio Nativa FM, hoje é aliado. O ex-candidato de 2004, o empresário Sales Lima, rebelde do grupo e considerado "inimigo íntimo", agora, firma acordo com o grupo Galdino e é indicado para ocupar a vaga de vice-prefeito na chapa, com a anuência de, pasmem, de Remígio Júnior (ou Júnior Remígio) e Dr. Paulo Barbosa (aquele que soltava também o verbo em palanques e rádios de Piancó contra o grupo Galdino). Acreditem!!! Antônio Dantas, atual vice-prefeito de Piancó, antes aliado, foi excluído e humilhado pelo grupo Galdino durante toda a gestão Flávia, se lançou candidato a prefeito, mas foi tragado pelo vício de sempre: foi convidado a formar chapa com Edvaldo, preenchendo a vaga de vice-prefeito.
Aliás, em Piancó, ser vice-prefeito se tornou um vício político de supostas novas lideranças que sonham um dia em poder contar com as "benesses" dos cofres públicos. O medo de enfrentar os grupos dominantes obstacula a ousadia de muitos que preferem seguir uma outra alternativa para fazer parte da divisão do bolo ou do "peito" (diga-se: poder).
Não esqueço o que disse Antônio Dantas, em 2004, quando do acerto da aliança com Flávia, em entrevista concedida a Rádio Cidade. Não teve cerimônia para explicar a forma, os objetivos e o vício da política predominante em Piancó. Naquela ocasião, foi taxativo: "Dra. Flávia, juntou a fome com a vontade de comer." Frase que condiz com o estado mórbido que se resume a atual política do município.
As condutas e posturas de muitos supostos políticos "defensores do Povo", que buscam tão-somente um lugar ao sol no reino da opulência, são consideradas comuns ao estilo eleitoreiro piancoense, com o consentimento de um Povo que assiste incólume o passar de décadas de atraso. Este Povo é a maior vítima de sua própria ingenuidade e tolerância... A realidade é esta, infelizmente. Em política não se cresce com medo nem, muito menos, buscando resolver problemas meramente pessoais ou de "barriga" de familiares, amigos e aliados.
Em Piancó, o Povo assiste a dança de cadeiras e de nomes, já acostumado com o predomínio de dois grupos dominantes rivais que sempre se alternam no poder, onde a mudança ocorre apenas nos nomes e assentos dos que assumem a administração municipal, pois os objetivos mesquinhos e comestíveis são os mesmos. Tudo é digerido por este Povo sofrido, acanhado e apático de Piancó. A ansiedade de mudança ocorre até o dia da eleição, eis, quando se abrem as urnas, tudo se repete. O resultado já é se devidamente conhecido e repetitivo: Um dos Grupos é declarado vencedor. A esperança de mudança não passa de utopia que persegue a consciência de um Povo que continua a acreditar nas mesmas promessas de décadas não cumpridas.
Em Piancó, a politicagem predomina através de ações de políticos e de seus correligionários que apostam no esquecimento pelo eleitorado das atitudes e comportamentos medíocres ou de promessas mentirosas ditas em discursos de palanques, que não resistem ao tempo. O político piancoense é conhecido pelas suas repetidas práticas alicerçadas na falta de postura ou de palavra. É comum para eles um dia está de um lado; no dia seguinte, de outro lado. Mudar de bandeira ou de bloco é como se trocar de roupa. Como se um discurso, uma frase, uma acusação ou mesmo uma ideologia não passassem de meras palavras "jogadas ao vento."
A história política de Piancó, infelizmente, se resume a uma só frase, dita muitas vezes pelo meu irmão Ângelo Filho, "Existem dois partidos em Piancó: os que comem e os que estão doidos para comer." É a política de ocupação de cargos e da obtenção de privilégios que eles visam, sonham e lutam. A ambição política, eivada de máculas insanáveis, está no sangue do político piancoense e com isso a barganha, os acordos espúrios e a falsidade são digeridos para se alcançar objetivos. A palavra, tão valiosa na história da humanidade, aqui em Piancó, é repetidas vezes utilizada na conjugação dos verbos TRAIR, ENGANAR, MENTIR e "MAMAR" (entre aspas, porque no vocabulário politiquez, mamar significa usufruir do dinheiro público em benefício próprio sem qualquer contraprestação). Muitas e muitas vezes, pronunciados, sem qualquer disfarces, pelos nossos "líderes" políticos de agora.
O Povo é o principal responsável por qualquer mudança. É somente o Povo que tem o dever de exigir a conjugação de outros verbos pelas atuais lideranças políticas. Não se deve permitir que continuem conjugando os verbos trair, enganar, mentir e mamar, praticando ações inescrupulosas e maléficas à sociedade e ao erário.
Acorda, Piancó! É hora de mudar o jeito de se fazer política, pois o ostracismo administrativo, cultural, moral e social que acampa em Piancó há mais de trinta anos precisa ser banido e extirpado deste rincão sertanejo. Não é possível conviver com uma política que privilegia grupos e pessoas, onde predomina a "vontade de comer" em detrimento da vontade de servir e de bem administrar em favor do interesse público.
Cabe ao nosso Povo reagir e começar uma nova história, eis que é a principal vítima desse processo de irresponsabilidade administrativa que impera há muito tempo. Esperar por novas lideranças não resolve. Não se pode acreditar em um sonho isolado de uma só pessoa que não tem compromisso com a sua gente. Permanecer sempre na expectativa de que um milagre poderá acontecer sem tomar atitudes é viver sonhando um sonho impossível. É entregar o nosso destino nas mãos de verdadeiras raposas ansiosas para devorar o "banquete" dos cofres públicos. É apenas torcer para que um dia, a migalha do bolo sobre para o resto da população. Isso é inadmissível!
Este ano, não é possível que deixemos que os dois grupos dominantes continuem utilizando de práticas arcaicas, que tanto prejuízo trouxeram ao nosso Povo. Eles precisam de um descanso nas suas ações obsoletas e tupiniquins. Piancó necessita, urgentemente, de uma alternativa de poder amparada em princípios éticos e morais, que vise o interesse público, o bem-estar social, a igualdade de tratamento, a extinção de privilégios, tendo como maior fundamento a transparência e a probidade administrativa. A busca incessante de investimentos na educação, na saúde, na segurança, na agricultura e pecuária, no esporte, no saneamento básico e, o mais importante, no ser humano deverá ser a bússola que orienta o condutor-gestor público. Exigir isso dos nossos representantes é pensar "grande" e coletivamente com responsabilidade e amadurecimento.
É imperioso que o eleitor piancoense comece a conjugar o verbo MUDAR e, concomitantemente, exigir dos políticos condutas públicas que devem trilhar pelos caminhos seguros da transparência, da honestidade, da vergonha "na cara", da seriedade, da palavra dita e cumprida, da consideração, priorizando melhorar as condições de nosso povo e atenuar o seu sofrimento, com políticas voltadas ao desenvolvimento. O termo política haverá de ser um dia em Piancó ser sinônimo de confiança e credibilidade...
O vício é o apetite dos vices. Cabe ao Povo enxotar a gula e a mesmice...