Praça Rural II (Notas da Fazenda)
Sinto nas cidades do Nordeste, onde moro, que ainda se respira o campo, perpassam eflúvios rurais em anúncios mercantis e também em teses acadêmicas – sobre os costumes, o ambiente doméstico e campestre, embora recorrentemente pastichados. Assim as festas juninas, as vaquejadas. Não se trata simplesmente de nostalgia, mas da ação de alguns interessados na apropriação de bens materiais e também culturais transformados em valores financeiros, que movimentam e sustentam um modelo de Estado. A construção de um tipo de sociedade que elimina o indivíduo e também a coletividade, e entroniza entidades que representam mitos e efígies, falam do bem e do mal, arrancados do memorial das nações, tratam enfim do que cria incertezas na vida das pessoas. Buscar o melhor para todos, eles asseveram, ser este o seu desiderato. Escondem a angústia e o desespero que dominam a sociedade. Resiste, todavia, a tradição, apesar de atraiçoada, na falsificação intencional das referências que lhe fazem. E nos dividimos envolvidos na crise.
Ocupando-me sempre em raciocínios e projetos um tanto extravagantes, diria singulares, e estimulado pela memória pessoal cheia de lembranças de fatos, de sugestões tiradas da leitura de textos nos variados campos das ciências sociais e da literatura, e sua teoria, na busca de descobertas comparativas e explicativas da sociedade dos homens ditos civilizados, cheguei à Praça Rural. Quero dizer, à idéia de inclusão nas políticas culturais públicas, do que eu chamo Praça Rural – local de encontro para negócios e lazer, da população que ainda mora no campo, cristalizando em tradição os costumes do lugar, porque na verdade estão ameaçados da mais grosseira descaracterização. O fato é que a população campesina não é atraída, mas puxada para a cidade, garantindo-lhe o Estado a reboque do Mercado, serviços públicos que lhe oferecem assistência à saúde, educação, alimentação, moradia, as famosas “cestas básicas”, e mais recursos que movimentam a conta usurária dos empresários que vendem tudo, até a própria honra no estelionato praticado em ações subliminares nas chamadas parcerias publicas/privadas.
Submetido a tais exigências, o campo tem sido a vítima maior no desenrolar das crises do sistema capitalista. Começou com o comprometimento irreversível e quase destruição total dos recursos naturais, de ecossistemas principalmente, nos quatro cantos do mundo. Sabemos do risco que representa para a saúde das pessoas, beberem água não “tratada”. Disponibilizam-na purificada para os que moram na cidade. Desconheço algo neste sentido dirigido para o campo. Um ex-presidente brasileiro famoso pela sua leviandade e maluquice esquizofrênica, referindo-se ao Nordeste (no caso ao campo) disse que mora em lugar ruim quem quer. Em boa hora foi posto para fora do governo. Mas a grande verdade é que as cidades, com a beleza de sua arquitetura, de sua urbanização, da modernização de serviços e tecnologias a serviço do homem já anunciadas profeticamente por Eça no “A Cidade e as Serras”, enfrentam a maior de todas as crises que já viveu o modo capitalista de produzirem, morarem e viverem os homens − o modelo do arbítrio imperial de que falavam Lênin e Orwell.
Vivem as cidades a cultura do desespero, construindo modelos insólitos de expressão social na economia e na arte, que só valem quando chancelada pelo Mercado, pois não se trata da razão e do conhecimento, mas de representações que se devem ajustar ao sistema. Eviden-temente não me refiro ao desenvolvimento submetido às leis das ciências que definem métodos, categorias e conceitos do conhecimento. Falo de criar, não de engendrar, simular, fantasiar em máscaras primevas e esdrúxulas, situações sociais indeterminadas, tentando esconder a realidade. Não falo evidentemente do aparecimento da burguesia, das escolas da arte, fenômenos gerados no império da razão, das ciências, das relações sociais que motivam a interação das forças que regem as leis da natureza e da sociedade. Mesmo o abstracionismo e outros conceitos que exprimem reações e relações na mente dos homens, explicam-se teoricamente, historicamente, filosoficamente − as escolas na literatura, nas artes plásticas.
Continuo na minha tese, no meu projeto de criação de praças rurais. Delas necessitamos nós que moramos no campo. Se argumentaram sobre o Direito à Cidade, acrescento a pro-mulgação da Declaração da Diversidade Cultural considerada “o ápice normativo da Unesco, principalmente no tocante a uma das competências que lhe dá sentido, qual seja: a instituição voltada para a construção de categorias de compreensão social e aqui, mais especificamente, a elaboração de conceitos relativos ao tema da diversidade cultural (PITOMBO, Mariela “Espaços e Atores Da Diversidade Cultural”, Edições Casa de Rui Barbosa, 2009, Itaú Cultural). Daí o reconhecimento da imposição como semente de inclusão social, da existência das praças rurais.
Constatamos explosões desarrazoadas de sentimentos nascidos na cidade. Eis aí o risco, o pecado da unicidade. A manifestação estúpida, e por que não dizer cretina no campo da música popular, do “movimento manguebeat”, impossível de ser explicado vernaculamente. Na fuga que empreende a juventude, os prisioneiros do Mercado, intentam criações. Vivendo na Cidade do Recife, a “quarta pior cidade do mundo para viver”, os que se autodenominam magueboys, desorientados apropriam-se do trágico na periferia – a lama escura do manguezal que guarda os caranguejos que alimentam os homens pobres e os escraviza inelutavelmente. Nos estreitos limites intelectuais de sua formação descobrem, confessam: “Fiz uma Jam session com o Lamento Negro, aquele grupo de samba-reggae, peguei um rítmo de hip-hop e joguei no tambor de maracatu... Vou chamar essa mistura de mangue” (Ob.cit. pág.281). Mera excentricidade que passa a caracterizar a modernidade: a transgressão, o contra, como usar a aba do boné para traz.